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sexta-feira, 11 de março de 2011

ANÁLISE DA CONCEPÇÃO DE AVALIAÇÃO DA NOVA LDB- 9394/96


ANÁLISE DA CONCEPÇÃO DE AVALIAÇÃO DA NOVA LDB- 9394/96

                                                                    Dorisney Carvalho
                                                 Graduando Pedagogia -UENP

A avaliação é um assunto recorrente nos documentos oficiais, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (L.D.B.) n° 9394/96, Seção II, no artigo 31 que assegura o seguinte:
 “Na Educação Infantil a avaliação far-se-á mediante o acompanhamento e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao Ensino Fundamental”.
Tanto na L.D.B como nos R.C.Ns, o destaque é para a avaliação contínua, visando o acompanhamento do processo de ensino-aprendizagem. No entanto, esses documentos oficiais apresentam conceitos amplos sobre a avaliação, permitindo uma variedade de procedimentos avaliativos nas escolas como o comportamento da criança, competência,(saber fazer) julgamento de valor (aluno briguento, obediente, caprichoso etc.). Todos esses esforços prevalecem na avaliação da Educação Infantil.
Para compreender a relevância no relatório de avaliação, é fundamental, esclarecer os pressupostos teóricos sobre o conceito de linguagem ; o relatório como instrumento de mediação entre professor e aluno pela perspectiva sócio-histórica-cultural (Vygotsky 1930, 1934) e a linguagem Argumentativa.
A linguagem nos relatórios de avaliação torna-se fundamental, uma vez que ela é o ponto de partida das relações humanas e sociais. A tarefa do avaliador é articular os conceitos construídos pela criança e formas mais elaboradas de compreensão da realidade. Nesse caso, a avaliação, no seu papel de mediação, cria uma Zona de desenvolvimento Proximal (Vygotsky, 1934), uma vez que, ao contemplar a mediação, a avaliação pode se constituir pela linguagem argumentativa,
Segundo a LDB...
1. O processo de avaliação deve ter como objetivo detectar problemas, servir como diagnóstico da realidade em função da qualidade que se deseja atingir. Não é definitivo nem rotulador, não visa a estagnar, e sim a superar as deficiências. São, assim, pelo menos vinte e seis referências explícitas à idéia de avaliar, seja relacionando-a a instituições, a alunos, aos docentes, ou aos processos educativos como um todo.
O artigo 9o., em seu inciso II, é o primeiro que menciona a avaliação, e o faz vinculando-a à idéia de qualidade:
Art. 9o. - A União incumbir-se-á de:
VI. assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior, em colaboração com os sistemas de ensino, objetivando a definição de prioridades e a melhoria da qualidade do ensino.
·        Entendemos que a lei propõe a avaliação como um direito do aluno e não como um ato classificatório.
·        Num contexto em que instituições e cursos passam por avaliação, também os professores são avaliados, se avaliam, e participam desse processo, conforme lemos:
Art. 13 - Os docentes incumbir-se-ão de: (...)
V. ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento profissional;
·        A avaliação do desempenho docente aparece também como motivação para uma possível promoção.
Mas vale lembrar que ao considerar normal o baixo rendimento de um grupo, o professor está, na verdade, desconsiderando sua própria função social.
·        A avaliação deve considerar o conhecimento prévio do aluno; não somente o que se aprende na escola.
Certamente é nesse sentido que a diretriz da Lei 9.394/96, no artigo 36, inciso II, indica que se adotem metodologias de avaliação que estimulem a iniciativa dos estudantes;
 A avaliação deve ser contínua e cumulativa, com prevalência do qualitativo sobre o quantitativo; deve ser voltada para a promoção, e não para a estagnação.
O inciso V do artigo 24 é o que faz referência mais explícita ao tipo de processo de avaliação.
Art. 24 (...)
V. a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios:
a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais;
b) possibilidade de aceleração de estudos para alunos com atraso escolar;
c) possibilidade de avanço nos cursos e nas séries, mediante verificação do aprendizado. (...)

·       Da letra a entende-se que o aluno não pode ser avaliado num momento isolado do resto do processo, e que a avaliação não é o ponto alto do bimestre.
A avaliação só se entende como processo contínuo. Da parte do professor, diz respeito à observação diária, à atenção dirigida ao que o aluno faz, ao que diz, ao modo como reage às diversas situações na sala de aula. Como se comporta ao enfrentar certos conteúdos, em que aspectos demonstra maior ou menor facilidade, quanto cresceu em relação aos comportamentos anteriores, como interage com a turma... e assim por diante.O texto da Lei indica que, além de contínua, a avaliação seja cumulativa. Que os instrumentos e as formas de avaliação priorizem uma visão global das matérias estudadas,levando o aluno a utilizar as competências que foi adquirindo em outros meses, em outras séries.Que as questões ou situações-problemas sejam abrangentes, interligando os saberes estudados.As letras seguintes (b e c) nos permitem acreditar, de todo modo, que a avaliação deve estar voltada para a promoção, e não para a estagnação: é o momento para possibilitar ao aluno demonstrar o que sabe, para permitir-lhe avançar.Ao tratar da educação infantil, o artigo 31 é explícito quanto à realização de uma avaliação que se faça mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento da criança, e enfatiza: sem o objetivo de promoção. Mesmo para o ensino fundamental, o artigo 32 não deixa dúvida quanto à necessidade de se desvincular a avaliação formativa e qualitativa da aprovação dos estudantes. Depois de admitir que alguns estabelecimentos escolares adotem o regime de progressão continuada (extinguindo,portanto, a reprovação), explicita que isso seja feito sem prejuízo da avaliação do processo de ensino-aprendizagem.

O artigo 47 postula no parágrafo primeiro que as instituições informarão aos interessados, antes de cada período letivo, os critérios de avaliação.Na LDB, a avaliação é apontada como meio de verificar o rendimento escolar. De acordo com a lei, a escola deve comprovar a eficiência dos alunos nas atividades escolares, avaliar de forma contínua o êxito por eles alcançados.  A avaliação, segundo a LDB, tem a finalidade de ajudar (e não coagir/reprimir) os alunos a superar as dificuldades, auxiliar no crescimento e na realização deste aluno.Sendo assim, o objetivo da escola não seria o de reprovar, mas promover a aprendizagem. A própria lei prevê alternativas para evitar a reprovação:
  • Múltiplas formas de organização dos grupos (séries, ciclos, outros); Formas de progressão parcial; Regime de progressão continuada.
Neste sentido a avaliação deve ser utilizada com cuidado, pois é um processo complexo. De acordo com o artigo 24, inciso V, da lei 9394/96, a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios:
  • Avaliação contínua e cumulativa, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados do período sobre os das provas (este critério lembra que provas e trabalhos são meios auxiliares que subsidiam a avaliação pessoal que o professor faz da aprendizagem de seus alunos após um período de ensino);
  • Possibilidade de aceleração dos estudos; possibilidade de avanço nos cursos e nas séries; aproveitamento de estudos; obrigatoriedade de estudos de recuperação.
Portanto, alguns itens desta lei estimulam a possibilidade da democratização do ensino a partir da prática da avaliação, para que a escola não seja excludente. A prática avaliativa tem uma concepção de homem, sociedade, educação, portanto ela nunca será neutra. Ao se posicionar neutra diante dos conflitos da educação, a escola está defendendo interesses dominantes.
Temos duas posições sobre a prática de avaliação:
Liberal: a avaliação é tida como um exercício autoritário. O professor é visto como transmissor de conhecimento.
Progressista: crítica, anti-autoritária, avaliação é processo e não produto.
A opção por uma ou outra forma de registro avaliativo expressa postura ideológico-político-pedagógica do professor. E essa forma de registro muitas vezes não é questionada. Entende-se a avaliação como uma tarefa cotidiana de cada educador a ser realizada a partir do projeto político pedagógico de cada escola. É preciso que os professores também avaliem a sua prática educativa. Ao invés de uma avaliação que servisse para controle do comportamento, seria mais adequado pesquisar as causas da reprovação, da evasão escolar, sem depositar toda a responsabilidade nos ombros do aluno.
Referências:
·        Artigo: Cristina Aparecida Colasanto. Relatório de Avaliação na Educação Infantil: um estudo sobre a linguagem...
·        Artigo: Revista de Educação CEAP: Concepções de Avaliação na LDB: - Andréa Cecília Ramal, ano 6, no. 21, junho 1998, p. 33 - 47.

quarta-feira, 9 de março de 2011

jean piaget-obra

Jean Piaget como autor principal

1.A Construção do Real na Criança. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. 360 p.

2. A Epistemologia Genética e a Pesquisa Psicológica. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1974.

3. A Epistemologia Genética. Trad. Nathanael C. Caixeira. Petrópolis: Vozes, 1971. 110p.

4. A Equilibração das Estruturas Cognitivas. Problema central do desenvolvimento. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

5. A Evolução Intelectual da Adolescência à Vida Adulta. Trad. Fernando Becker e Tania B.I. Marques. Porto Alegre: Faculdade de Educação, 1993. Traduzido de: Intellectual Evolution from Adolescence to Adulthood. Human Development, v. 15, p. 1-12, 1972.

6. A Formação do Símbolo na Criança. Imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Trad. Alvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

7. A Linguagem e o Pensamento da Criança. Trad. Manuel Campos. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959. 307 p.

8. A Noção de Tempo na Criança. Rio de Janeiro: Distribuidora Record, (s.d.).

9. A Origem da Idéia do Acaso na Criança. Rio de Janeiro: Distribuidora Record, (s.d.).

10. A Práxis na Criança. In.: Piaget. Rio de Janeiro: Forense, 1972.

11. A Psicologia da Inteligência. Trad. Egléa de Alencar. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1958. 239 p.

12. A Representação do Mundo na Criança. Rio de Janeiro: Distribuidora Record, [s.d.].

13. A Situação das Ciências do Homem no Sistema das Ciências. Trad. Isabel Cardigos dos Reis. Amadora: Bertrand, Vol. I, 1970. 146 p.

14. A Vida e o Pensamento do Ponto de Vista da Psicologia Experimental e da Epistemologia Genética. In.: Piaget. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1972.

15. Abstração Reflexionante: Relações lógico-aritméticas e ordem das relações espaciais. Trad. Fernando Becker e Petronilha G. da Silva, Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

16. Aprendizagem e Conhecimento. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1979.

17. Biologia e Conhecimento. Trad. Francisco M. Guimarães. Petrópolis: Vozes, 1973. 423p.

18. Conversando com Jean Piaget. Rio de Janeiro: Difel, 1978.

19. Da Lógica da Criança à Lógica do Adolescente. São Paulo: Pioneira, 1976.

20. Ensaio de Lógica Operatória. São Paulo: Editora Globo/EDUSP, 1976.

21. Estudos Sociológicos. Rio de Janeiro: Forense, 1973.

22. Fazer e Compreender. Trad. Cristina L. de P. Leite. São Paulo: Melhoramentos; EDUSP, 1978. 186 p.

23. Gênese das Estruturas Lógicas Elementares. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. 356 p.

24. Inconsciente Afetivo e Inconsciente Cognitivo. In.: Piaget. Rio de Janeiro: Forense, 1972.

25. O Estruturalismo. Trad. Moacir R. de Amorim. São Paulo: Difel, 1970. 119 p.

26. O Juízo Moral na Criança. São Paulo:Summus, 1994. 302 p.

27. O Julgamento Moral na Criança. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

28. O Nascimento da Inteligência na Criança. Trad. Alvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. 387p.

29. O Possível e o Necessário. Evolução dos necessários na criança. Porto Alegre: Artes médicas, v. 2, 1986.

30. O Raciocínio na Criança. Trad. Valerie Rumjanek Chaves. Rio de Janeiro: Record, 1967. 241p.

31. O Trabalho por Equipes na Escola: bases psicológicas. Trad. Luiz G. Fleury. Revista de Educação. São Paulo: Diretoria do Ensino do Estado de São Paulo. vol. XV e XVI, 1936. p. 4-16.

32. Para Onde Vai a Educação? Trad. Ivete Braga. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. 89 p.

33. Psicologia e Epistemologia: Por uma teoria do conhecimento. Trad. Agnes Cretella. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1973. 158 p.

34. Psicologia e Pedagogia. Trad. Dirceu A. Lindoso; Rosa M.R. da Silva. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1970. 182 p.

35. Sabedoria e Ilusões da Filosofia. Trad. Zilda A. Daeir. São Paulo: Difusão Européia, 1969. 200 p.

36. Seis Estudos de Psicologia. Trad. Maria A.M. D'Amorim; Paulo S.L. Silva. Rio de Janeiro: Forense, 1967. 146 p.

37. Tratado de Psicologia Experimental: A inteligência. Trad. Alvaro Cabral. Rio de Janeiro: Forense, v. 7, 1969.

Obras de Jean Piaget em co-autoria com Bärbel Inhelder:

1. A Psicologia da Criança. Trad. Octavio M. Cajado. São Paulo: Difel, 1968. 146 p.

2. Memória e Inteligência. Trad. Alexandre R. Salles. Rio de Janeiro: Artenova, [s.d.]; Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1979. 410 p.

3. O Desenvolvimento das Quantidades Físicas na Criança. Conservação e atomismo. Trad. Christiano M. Oiticica. Rio de Janeiro: Zahar. 1970. 359 p.

4. A Imagem Mental na Criança.Trad.António Couto Soares.Porto:Livraria Civilização-Editora.1977.525p.

Obras de Jean Piaget em co-autoria com Paul Fraisse:

1. Tratado de Psicologia Experimental: A percepção. Trad. Eliseu Lopes. Rio de Janeiro: Forense, v. 6, 1969.

2. Tratado de Psicologia Experimental: Aprendizagem e memória. Trad. Agnes Cretella. Rio de Janeiro: Forense, v. 4, 1969. 300 p.

3. Tratado de Psicologia Experimental: História e método. Trad. Agnes Cretella. Rio de Janeiro: Forense, v. 1, 1969. 188 p.

4. Tratado de Psicologia Experimental: Linguagem, comunicação e decisão. Rio de Janeiro: Forense, v. 8, 1969.

5. Tratado de Psicologia Experimental: Motivação, emoção e personalidade. Trad. Agnes Cretella. Rio de Janeiro: Florense, v. 5, 1969.

6. Tratado de Psicologia Experimental: Psicofisiologia do comportamento. Trad. Agnes Cretella. Rio de Janeiro: Forense, v. 3, 1969. 163 p.

7. Tratado de Psicologia Experimental: Psicologia social. Rio de Janeiro: Florense, v. 9, 1970.

8. Tratado de Psicologia Experimental: Sensação e motricidade. Trad. Agnes Cretella. Rio de Janeiro: Florense, v. 2, 1969. 158 p.

Obras de Jean Piaget em outras co-autorias: Com Louis Meylan e Pierre Bovet:

1. Edouard Claparède: A escola sob medida e estudos complementares sobre Claparède e sua doutrina. Trad. Maria Lúcia E. Silva. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1973. 246 p.

Com A. Szemninska:

1. A Gênese do Número na Criança. Trad. Christiano Monteiro Oiticia. Rio de Janeiro: Zahar, 1971. 331 p.

Com vários:

1. A Tomada da Consciência. Trad. Edson B. de Souza. São Paulo: Melhoramentos e EDUSP, 1977. 211 p.

2. Educar para o Futuro. Trad. Rui B. Dias. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1974. 110 p.

3. Problemas de Psicolingüística. Trad. Alvaro Cabral. São Paulo: Mestre Jou, 1973. 252p

jean piaget-construtivismo

iNo ano de 1955, em genebra, é criado o Centro Internacional de Epistemologia genética onde se iria iniciar uma verdadeira revolução no campo da filosofia, criada por um doutor em biologia que se atrevia a introduzir idéias insólidas no ramo da epistemologia. O fundador do centro Jean Piaget, em busca de uma teoria que pudesse conduzir a epistemologia a ser considerada como uma ciência dissociada da filosofia, termina por buscar conhecimentos e métodos que o conduziram ao estudo da psicologia e, em especial a psicologia experimental, se tornando conhecido como o psicólogo da infância. Ele foi o homem que descobriu em detalhes os estágios do desenvolvimento da inteligência na criança. Suas idéias provocaram escândalos comparáveis as idéias de Freud quando se atreve a falar da sexualidade infantil. Porque tanto Piaget quanto Freud, destrói idéias e tabus: Freud, mostrando que o desenvolvimento da sexualidade precede, de longe, a adolescência; Piaget, mostrando que o desenvolvimento do pensamento lógico precede a idade da razão e, inclusive, a linguagem e assinalando que há uma perfeita continuidade entre a criança que constrói seu mundo e o cientista que constrói uma teoria à cerca desse mundo. Freud mostrava a criança perversa e polimorfa, Piaget, a criança teorizante da realidade. As primeiras idéias de Piaget vão contra a idéia puritana da inocência infantil e contra, o preconceito adulto, cristalizado na instituição escolar, que pretende que a criança chega a se tornar um ser pensante graças aos adultos que a ensinam. Em suas obras ele começa a distinguir seu pensamento psicológico do pensamento filosófico. Estas distinções o transforma no homem dos estágios, pois, mesmo sendo conhecido como psicólogo da infância, sua intenção era explicar o adulto. “Sua fama como psicólogo eclipsou suas contribuições epistemológicas, embora a psicologia que ele desenvolveu fosse apenas o passo prévio necessário para construir uma epistemologia”. Por estes motivos e pelo fato de envolver conhecimentos biológicos suas teorias são conhecidas como Teorias Psicogenéticas.
Estas teorias psicogenéticas de Jean Piaget foram desenvolvidas durante toda sua vida. Por este motivo citaremos, algumas delas, por meio de ciclos que poderão facilitar a compreensão e a visualização do espaço tempo em que foram sendo divulgadas. Assim, no primeiro ciclo da obra de Piaget (1923-1932), se pode dizer que ele acreditava estudar o pensamento através da linguagem e desenvolve a idéia de um período egocêntrico do pensamento, refletido na utilização que a criança faz da linguagem, com sua impossibilidade de diálogo verdadeiro, na medida em que não é capaz de assumir o ponto de vista de outros. Essa é a noção de egocentrismo infantil. Piaget, bastante criticado, obteve apoio apenas de Claparéde e do psicólogo soviético Vigotsky, que nunca chegou a se encontrar com Piaget. O segundo ciclo da obra de Piaget (1936-1946) têm início através de estudos com os próprios filhos. Nesta época Piaget estuda as formas da inteligência que precede a linguagem. Ele fundamenta sua concepção básica: O pensamento procede da ação e as estruturas do pensamento expressam apenas as características mais gerais da organização das ações. Estas afirmações foram enunciadas por Piaget após observações e experimentos rigorosos. Suas hipóteses são aqui não de natureza psicológica mais sim epistemológica. O período (1941-1975), que caracteriza o terceiro ciclo, é considerado o miolo da obra Piagetiana conhecida por “Organização das Categorias Lógico-matemáticas e físicas” na criança entre 3-4 anos até a adolescência. Pode-se dizer que esse ciclo se constitui em por a prova experimental as categorias Kantianas. Piaget responde aos a priori de Kant com a prova dos fatos: as categorias imutáveis da razão são nada mais que produto de uma construção psicogenética; o intemporal é o produto da história. Neste ciclo Piaget rever várias concepções psicológicas como, por exemplo, a imagem mental e a memória, ele as faz serem reconsideradas na teoria operatória do desenvolvimento da inteligência mostrando que ela, a inteligência, é um desenvolvimento intelectual que reverte sobre as funções psicológicas, modificando-as. Ainda neste ciclo, em 1942, Piaget relata sobre os agrupamentos da lógica e sobre a reversibilidade do pensamento. Em 1949 ele anuncia um tratado de lógica, ensaio de logística operatória, com as operações ternárias da lógica bivalente das proposições, Piaget cria uma estrutura lógica que serve de modelo para a organização das operações intelectuais própria do período que ele chamou de operações concretas entre 6-7 anos e 10-11 anos. A culminação de sua obra surge em 1950, o de epistemologia genética. Neste período Piaget juntara dados psicológicos para uma nova concepção da epistemologia (uma concepção científica não puramente especulativa). Com os estudos de psicologia genética em 1975, Piaget realiza trabalhos teóricos e experimentais que foram resultados de obras escritas com vários cientistas da área de lógica e da temática. Ele não era pedagogo nem escreveu obras sobre pedagogia, mas os pedagogos os citam com freqüência como um dos autores contemporâneo que revolucionaram as idéias sobre educação. Piaget não era um pedagogo, pois, suas idéias sobre educação ocorreram mais por implicação do que por preocupação do problema. Em suas obras epistemológicas ela ataca os filósofos, principalmente, os franceses. Em seu livro Biologiay conocimiento Piaget quis desenvolver uma epistemologia biológica para unir o problema do conhecimento ao da organização biológica. A mais importante das obras de Piaget foi à invocação de um fator de equilibração que permitiu explicar o progresso cognitivo, a passagem de um estágio para o seguinte. Essa reformulação de sua obra propõe uma releitura das descobertas fundamentais a partir de uma perspectiva nova. É o pensamento dialético de Piaget. Aqui seu modelo de equilibração diz que todo esquema de funcionamento necessita do objeto assimilável para sua própria conservação; um objeto não assimilável constitui uma perturbação; os mecanismos de regulação atuam tentando compensar a perturbação. O modo mais efetivo de compensação é precisamente aquele que consegue tornar assimilável o elemento inicialmente perturbador, o que exige uma modificação do próprio esquema, e a realização de uma equilibração. Fica claro então que o progresso de um estado para o próximo é concebido como resultado necessário do processo histórico de interação entre o sujeito e o objeto e não como o resultado inevitável de algo programável no sujeito.
A preocupação de Piaget com a origem dos conceitos matemáticos, do ponto de vista genético, assim como sua análise epistemológica das idéias básicas das matemáticas o levou a uma de suas descobertas mais extraordinárias e talvez a mais desconcertante. A descoberta consiste em ter encontrado três tipos de estruturas elementares que servem de ponto de origem, na gênese psicológica, a construção de todos os conceitos matemáticos ulteriores. Estas estruturas iniciais, que são as mais elementares, aparecem como representações de estruturas algébricas estruturadas de ordem e estruturas topológicas. O extraordinário é que esses três tipos de estruturas coincidem com as três estruturas mães ou estruturas básicas de toda a matemática, encontrada pela escola do BOURBAKI. As estruturas fundamentais da matemática coincidem com as estruturas mais elementares (do ponto de vista genético). Segundo Piaget a experiência lógico-matemática não procederia por abstração das propriedades do objeto, mas por abstração das propriedades que a ação introduz nos objetos. (para comprovar se um objeto é pesado ou leve, o sujeito deve executar certas ações, porém a propriedade que comprova ou que aprende sobre o objeto não é criado pela ação, ao contrário, as propriedades que comprova, não pertenciam ao objeto antes que a ação do sujeito as introduzisse. Numa conversa entre Piaget e um grupo de filósofo soviético na academia de ciência de Moscou Kedrov pergunta a Piaget “você acha que o objeto existe antes do conhecimento?” Piaget responde “como psicólogo não sei, porque só conheço o objeto atuando sobre ele, e não posso afirmar nada sobre ele antes dessa ação”. Rubinstein pergunta “para nós, o objeto é uma parte do mundo. Você acha que o mundo existe antes do conhecimento?” Piaget responde “este é outro problema. Para atuar sobre o objeto é preciso de um organismo e esse organismo também faz parte do mundo. Então, acho que o mundo existe antes do conhecimento, nós não o recortamos em objetos particulares senão no curso de nossas ações e por interações entre o organismo e o meio”. Destas respostas o filósofo francês Lucien Goldman percebe que Piaget não era marxista. A síntese realizada por Piaget coloca-o na linha dos grandes pensadores dialéticos como Kant, Hegel e Marx. Seus pontos de coincidência com o materialismo dialético são notáveis, como, por exemplo, “ o homem é um ser que atua pelo mundo, o transformando. Mas transformando também a si mesmo no curso de suas interações”, o conhecimento é ação e procede da ação”. A ação aparece em Piaget como constitutivo de todo conhecimento e, não só, como verificadora de um conhecimento obtido por via sensorial. Em relação à gênese do conhecimento lógico-matemático foi uma contribuição para um problema mal resolvido pela filosofia marxista: o da dupla natureza – empírica e dedutiva – do pensamento matemático. A alternativa clássica – materialismo versus idealismo – Piaget opõe uma concepção segundo a qual o objeto não está dado no ponto de partida, mas se constrói a partir de um organismo que não é criado pelo sujeito, mas que é a condição mesma de sua existência; a evidencia racional não é produto direto da experiência nem uma forma a priori do espírito: é o resultado de um processo de requilibração sucessiva em virtude de um processo histórico e dialético; a objetividade não está dada no ponto de partida: é uma realização, uma conquista, não um impor-se do objeto sobre o sujeito, mas um equilíbrio entre ambos, que envolve um Maximo de atividade da parte do sujeito, um sujeito que é sempre ator e não um mero espectador. Piaget ao completar 80 anos nos proporcionou mais uma surpresa. Considera que o conhecimento é construção perpétua e nunca sistema fechado. Porque cada problema resolvido abre inúmeras novas questões que desconhecemos até então.
Sabe-se que o senso comum considera que a aprendizagem é um processo dirigido de fora, pela ação dos adultos sobre a criança. Para Piaget, as explicações, na realidade apenas começa com essas considerações. Ele acrescenta que qualquer estímulo, para atuar como processo de aprendizagem, deve ser assimilado pelo organismo, pois, em nível orgânico-biológico, a assimilação designa a incorporação de elementos estranhos ao organismo, de objetos exteriores, que são reelaborados (modificados em função das estruturas orgânica que os assimilam), no entanto essa modificação não é material, não afeta a matéria própria do sujeito, mas sua função; e sua incorporação não será material: o objeto será incorporado aos esquemas de ação do sujeito. Desse modo, a assimilação designa a ação do sujeito sobre o objeto. Na teoria de Piaget um elemento antagônico a assimilação é a acomodação; ela designa ação de sentido contrário, do objeto sobre o sujeito, a modificação que o sujeito experimenta em virtude do objeto. Para ele esse movimento de assimilação e acomodação, com doses variáveis entre um e outro, é denominado adaptação. Isso significa que uma criança não pode chegar a conhecer se não aqueles objetos que é capaz de assimilar a esquemas anteriores. Esses esquemas são, no começo do desenvolvimento, esquema de ação elementares, que irão enriquecendo-se e complexificando-se à medida que o conhecimento prossegue, proporcionando, assim, novos instrumentos de assimilação. Essa progressão ocorre de tal forma que são esses esquemas de ação que proporcionam uma primeira classificação do mundo. Os processos elementares de classificação estão, portanto, em germe desde os atos mais primitivos. O que não significa que toda lógica de classes não esteja pré-formada. Dessa forma verifica-se que as propriedades atribuídas aos objetos dependem somente da ação que o sujeito pode exercer sobre ele, sem que nada garanta ainda a permanência de suas qualidades fora dessa ação. Piaget afirma ainda que é somente nos primeiros anos de vida que se pode afirmar com fundamento que os objetos exteriores continuam existindo ainda que o sujeito não os veja nem atue sobre eles. Nos estudos sobre o objeto permanente e, a partir dele, é que só se pode falar especificamente na relação entre sujeito-objeto, já que o objeto diferenciou-se o suficiente do sujeito para adquirir uma permanência substancial que garante sua existência objetiva, independentemente de um contexto de ação; mas, correlativamente, o sujeito diferenciou-se o suficiente do objeto para começar a se situar a si mesmo entre eles, em um universo que irá organizando-se e objetivando-se paulatinamente. Assim para Piaget a inteligência é, antes de mais nada, adaptação, é a forma de equilíbrio para qual tende todas as estruturas, pois, é preciso buscar seu modo de formação nos mecanismos sensório-motores mais elementares. A comunidade funcional não exclui de forma alguma a diversidade nem tampouco a heterogeneidade das estruturas. Cada estrutura deve ser concebida como uma forma particular de equilíbrio. Essas estruturas devem ser consideradas como se sucedendo conforme uma lei de evolução tal que cada uma assegure um equilíbrio mais amplo e mais estável aos processos de intervenção já no seio da precedente. A inteligência não é mais do que um termo genérico que designa as formas superiores de organização ou de equilíbrio das estruturas cognitivas.
Diante do exposto se verifica que Piaget caracterizou a seguinte seqüência de desenvolvimento da inteligência: o primeiro estágio, que é o da inteligência sensório-motora, que se inicia desde o nascimento até os dois anos de vida, esta fase é o pensamento em ato, em ação; o estágio da inteligência representativa, o pré-operatório, onde a criança substitui, no pensamento, um objeto por uma representação simbólica, porém neste estágio a criança confunde as relações temporais com as relações espaciais. Isto ocorre em crianças entre dois e seis anos de idade; no período das operações concretas, que se estende dos sete aos dez ou onze anos de idade, a criança sofre uma mudança qualitativa, que lhe permite operar em pensamento, substituir as relações reais por ações virtuais, que garantam a conservação de certas invariantes, onde a percepção não nota se não variações e modificações. Há uma ação interiorizada. Pois para Piaget, a essência do pensamento está na ação. O pensamento origina-se na ação real e efetiva, no contato com as coisas e, quando se torna pensamento (ação interiorizada), não perderá sua qualidade de ser, antes de mais nada, uma ação. Neste contexto o pensamento é uma ação, portanto, é um ato solidário com outros atos que, constituem um sistema. Estes atos são reversíveis. Essa reversibilidade pode ser definida como a possibilidade de combinar toda operação com seu inverso, de forma que ambos se anulem. Os atos consistem em certas modificações dos objetos ou relativos a modificações do organismo. O pensamento é capaz de tornar reversível o irreversível e de compor os atos de forma a superarem as limitações da ação efetiva. Neste estágio a criança necessita da presença concreta dos objetos para poder raciocinar; no estágio das operações formais, a partir dos onze anos de idade, a criança é capaz de se desprender dos dados imediatos, de raciocinar não apenas sobre o real, e sim também de raciocinar sobre hipóteses, ou seja, sobre o possível. Com estas afirmações Piaget formulou, durante vários anos de sua vida, as teorias psicogenéticas.
Referência Bibliográfica
FERREIRO, Emília. Atualidades de Jean Piaget. Tradução de Ernani Rosa, Supervisão, consultoria e revisão técnica de Fernando Becker. 1ª edição. [Porto Alegre] Rio Grande do Sul: Artmed, 2001.
Adriano Alves de Oliveira é Graduado em ciências exatas com habilitação em matemática, Especialista em "Ensino da Matemática", Mestrando do curso "Formação de Educadores".
 

jean piaget-ideia

A TEORIA BÁSICA
DE JEAN PIAGET

José Luiz de Paiva Bello
Vitória, 1995




      Desde muito cedo Jean Piaget demonstrou sua capacidade de observação. Aos onze anos percebeu um melro albino em uma praça de sua cidade. A observação deste pássaro gerou seu primeiro trabalho científico. Formado em Biologia interessou-se por pesquisar sobre o desenvolvimento do conhecimento nos seres humanos. As teorias de Jean Piaget, portanto, tentam nos explicar como se desenvolve a inteligência nos seres humanos. Daí o nome dado a sua ciência de Epistemologia Genética, que é entendida como o estudo dos mecanismos do aumento dos conhecimentos.
      Convém esclarecer que as teorias de Piaget têm comprovação em bases científicas. Ou seja, ele não somente descreveu o processo de desenvolvimento da inteligência mas, experimentalmente, comprovou suas teses.
      Resumir a teoria de Jean Piaget não é uma tarefa fácil, pois sua obra tem mais páginas que a Enciclopédia Britânica. Desde que se interessou por desvendar o desenvolvimento da inteligência humana, Piaget trabalhou compulsivamente em seu objetivo, até às vésperas de sua morte, em 1980, aos oitenta e quatro anos, deixando escrito aproximadamente setenta livros e mais de quatrocentos artigos. Repassamos aqui algumas idéias centrais de sua teoria, com a colaboração do “Glossário de Termos”.


      1 - A inteligência para Piaget é o mecanismo de adaptação do organismo a uma situação nova e, como tal, implica a construção contínua de novas estruturas. Esta adaptação refere-se ao mundo exterior, como toda adaptação biológica. Desta forma, os indivíduos se desenvolvem intelectualmente a partir de exercícios e estímulos oferecidos pelo meio que os cercam. O que vale também dizer que a inteligência humana pode ser exercitada, buscando um aperfeiçoamento de potencialidades, que evolui "desde o nível mais primitivo da existência, caracterizado por trocas bioquímicas até o nível das trocas simbólicas" (RAMOZZI-CHIAROTTINO apud CHIABAI, 1990, p. 3).


      2 - Para Piaget o comportamento dos seres vivos não é inato, nem resultado de condicionamentos. Para ele o comportamento é construído numa interação entre o meio e o indivíduo. Esta teoria epistemológica (epistemo = conhecimento; e logia = estudo) é caracterizada como interacionista. A inteligência do indivíduo, como adaptação a situações novas, portanto, está relacionada com a complexidade desta interação do indivíduo com o meio. Em outras palavras, quanto mais complexa for esta interação, mais “inteligente” será o indivíduo. As teorias piagetianas abrem campo de estudo não somente para a psicologia do desenvolvimento, mas também para a sociologia e para a antropologia, além de permitir que os pedagogos tracem uma metodologia baseada em suas descobertas.


      3 - “Não existe estrutura sem gênese, nem gênese sem estrutura” (Piaget). Ou seja, a estrutura de maturação do indivíduo sofre um processo genético e a gênese depende de uma estrutura de maturação. Sua teoria nos mostra que o indivíduo só recebe um determinado conhecimento se estiver preparado para recebê-lo. Ou seja, se puder agir sobre o objeto de conhecimento para inserí-lo num sistema de relações. Não existe um novo conhecimento sem que o organismo tenha já um conhecimento anterior para poder assimilá-lo e transformá-lo. O que implica os dois pólos da atividade inteligente: assimilação e acomodação. É assimilação na medida em que incorpora a seus quadros todo o dado da experiência ou ëstruturação por incorporação da realidade exterior a formas devidas à atividade do sujeito (Piaget, 1982). É acomodação na medida em que a estrutura se modifica em função do meio, de suas variações. A adaptação intelectual constitui-se então em um "equilíbrio progressivo entre um mecanismo assimilador e uma acomodação complementar" (Piaget, 1982). Piaget situa, segundo Dolle, o problema epistemológico, o do conhecimento, ao nível de uma interação entre o sujeito e o objeto. E "essa dialética resolve todos os conflitos nascidos das teorias, associacionistas, empiristas, genéticas sem estrutura, estruturalistas sem gênese, etc. ... e permite seguir fases sucessivas da construção progressiva do conhecimento" (1974, p. 52).


      4 - O desenvolvimento do indivíduo inicia-se no período intra-uterino e vai até aos 15 ou 16 anos. Piaget diz que a embriologia humana evolui também após o nascimento, criando estruturas cada vez mais complexas. A construção da inteligência dá-se portanto em etapas sucessivas, com complexidades crescentes, encadeadas umas às outras. A isto Piaget chamou de “construtivismo sequencial”.


      A seguir os períodos em que se dá este desenvolvimento motor, verbal e mental.


      A. Período Sensório-Motor - do nascimento aos 2 anos, aproximadamente.
      A ausência da função semiótica é a principal característica deste período. A inteligência trabalha através das percepções (simbólico) e das ações (motor) através dos deslocamentos do próprio corpo. É uma inteligência iminentemente prática. Sua linguagem vai da ecolalia (repetição de sílabas) à palavra-frase ("água" para dizer que quer beber água) já que não representa mentalmente o objeto e as ações. Sua conduta social, neste período, é de isolamento e indiferenciação (o mundo é ele).


      B. Período Simbólico - dos 2 anos aos 4 anos, aproximadamente.
      Neste período surge a função semiótica que permite o surgimento da linguagem, do desenho, da imitação, da dramatização, etc.. Podendo criar imagens mentais na ausência do objeto ou da ação é o período da fantasia, do faz de conta, do jogo simbólico. Com a capacidade de formar imagens mentais pode transformar o objeto numa satisfação de seu prazer (uma caixa de fósforo em carrinho, por exemplo). É também o período em que o indivíduo “dá alma” (animismo) aos objetos ("o carro do papai foi 'dormir' na garagem"). A linguagem está a nível de monólogo coletivo, ou seja, todos falam ao mesmo tempo sem que respondam as argumentações dos outros. Duas crianças “conversando” dizem frases que não têm relação com a frase que o outro está dizendo. Sua socialização é vivida de forma isolada, mas dentro do coletivo. Não há liderança e os pares são constantemente trocados.
      Existem outras características do pensamento simbólico que não estão sendo mencionadas aqui, uma vez que a proposta é de sintetizar as idéias de Jean Piaget, como por exemplo o nominalismo (dar nomes às coisas das quais não sabe o nome ainda), superdeterminação (“teimosia”), egocentrismo (tudo é “meu”), etc.


      C. Período Intuitivo - dos 4 anos aos 7 anos, aproximadamente.
      Neste período já existe um desejo de explicação dos fenômenos. É a “idade dos porquês”, pois o indíviduo pergunta o tempo todo. Distingue a fantasia do real, podendo dramatizar a fantasia sem que acredite nela. Seu pensamento continua centrado no seu próprio ponto de vista. Já é capaz de organizar coleções e conjuntos sem no entanto incluir conjuntos menores em conjuntos maiores (rosas no conjunto de flores, por exemplo). Quanto à linguagem não mantém uma conversação longa mas já é capaz de adaptar sua resposta às palavras do companheiro.
      Os Períodos Simbólico e Intuitivo são também comumente apresentados como Período Pré-Operatório.


      D. Período Operatório Concreto - dos 7 anos aos 11 anos, aproximadamente.
      É o período em que o indivíduo consolida as conservações de número, substância, volume e peso. Já é capaz de ordenar elementos por seu tamanho (grandeza), incluindo conjuntos, organizando então o mundo de forma lógica ou operatória. Sua organização social é a de bando, podendo participar de grupos maiores, chefiando e admitindo a chefia. Já podem compreender regras, sendo fiéis a ela, e estabelecer compromissos. A conversação torna-se possível (já é uma linguagem socializada), sem que no entanto possam discutrir diferentes pontos de vista para que cheguem a uma conclusão comum.


      E. Período Operatório Abstrato - dos 11 anos em diante.
      É o ápice do desenvolvimento da inteligência e corresponde ao nível de pensamento hipotético-dedutivo ou lógico-matemático. É quando o indivíduo está apto para calcular uma probabilidade, libertando-se do concreto em proveito de interesses orientados para o futuro. É, finalmente, a “abertura para todos os possíveis”. A partir desta estrutura de pensamento é possível a dialética, que permite que a linguagem se dê a nível de discussão para se chegar a uma conclusão. Sua organização grupal pode estabelecer relações de cooperação e reciprocidade.


      5 - A importância de se definir os períodos de desenvolvimento da inteligência reside no fato de que, em cada um, o indivíduo adquire novos conhecimentos ou estratégias de sobrevivência, de compreensão e interpretação da realidade. A compreensão deste processo é fundamental para que os professores possam também compreender com quem estão trabalhando.
      A obra de Jean Piaget não oferece aos educadores uma didática específica sobre como desenvolver a inteligência do aluno ou da criança. Piaget nos mostra que cada fase de desenvolvimento apresenta características e possibilidades de crescimento da maturação ou de aquisições. O conhecimento destas possibilidades faz com que os professores possam oferecer estímulos adequados a um maior desenvolvimento do indivíduo.
      “Aceitar o ponto de vista de Piaget, portanto, provocará turbulenta revolução no processo escolar (o professor transforma-se numa espécia de ‘técnico do time de futebol’, perdendo seu ar de ator no palco). (...) Quem quiser segui-lo tem de modificar, fundamentalmente, comportamentos consagrados, milenarmente (aliás, é assim que age a ciência e a pedagogia começa a tornar-se uma arte apoiada, estritamente, nas ciências biológicas, psicológicas e sociológicas). Onde houver um professor ‘ensinando’... aí não está havendo uma escola piagetiana!” (Lima, 1980, p. 131).


      O lema “o professor não ensina, ajuda o aluno a aprender”, do Método Psicogenético, criado por Lauro de Oliveira Lima, tem suas bases nestas teorias epistemológicas de Jean Piaget. Existem outras escolas, espalhadas pelo Brasil, que também procuram criar metodologias específicas embasadas nas teorias de Piaget. Estas iniciativas passam tanto pelo campo do ensino particular como pelo público. Alguns governos municipais, inclusive, já tentam adotá-las como preceito político-legal.
      Todavia, ainda se desconhece as teorias de Piaget no Brasil. Pode-se afirmar que ainda é limitado o número daqueles que buscam conhecer melhor a Epistemologia Genética e tentam aplicá-la na sua vida profissional, na sua prática pedagógica. Nem mesmo as Faculdades de Educação, de uma forma geral, preocupam-se em aprofundar estudo nestas teorias. Quando muito oferecem os períodos de desenvolvimento, sem permitir um maior entendimento por parte dos alunos.





Jean Piaget




Referências
CHIABAI, Isa Maria. A influência do meio rural no processo de cognição de crianças da pré-escola: uma interpretação fundamentada na teoria do conhecimento de Jean Piaget. São Paulo, 1990. Tese (Doutorado), Instituto de Psicologia, USP. 165 p.

LIMA, Lauro de Oliveira. Piaget para principiantes. 2. ed. São Paulo: Summus, 1980. 284 p.

PIAGET, Jean. O nascimento da inteligência na criança. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. 389 p.

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Biografia

Jean Piaget nasceu em 1896 em Neuchâtel, Suíça. Seu pai, Arthur Piaget, foi um professor de literatura medieval na Universidade de Neuchâtel. Piaget foi uma criança precoce, tendo publicado seu primeiro artigo sobre um pardal albino aos 11 anos de idade.
Piaget se tornou Doutor em ciência naturais pela Universidade de Neuchâtel e após estudou brevemente na Universidade de Zürich. No início de sua carreira acadêmica, Piaget se interessou pela psicanálise. Mudou-se para Paris, França onde pesquisou no colégio Grange-Aux-Belle para garotos, dirigido por Alfred Binet, que desenvolveu o teste de inteligência de Binet. Foi durante seu trabalho com os resultados destes testes que Piaget percebeu regularidades nas respostas erradas das crianças de mesma faixa etária. Esses dados permitiram o lançamento da hipótese de que o pensamento infantil é qualitativamente diferente do pensamento adulto. Em 1921, Piaget retornou à Suíça à convite do diretor do Instituto Rousseau em Genebra.
No ano de 1923, se casou com Valentine Châtenay, uma de suas ex-alunas. Juntos, tiveram três filhos, cujos desenvolvimentos cognitivos foram minuciosamente estudados pelo pesquisador suíço. Em 1929, Jean Piaget aceitou o posto de diretor do Internacional Bureau of Education e permaneceu à frente do instituto até 1968. Anualmente ele pronunciava palestras no IBE Council e na International Conference on Public Education, nos quais ele expressava suas teses educacionais.
Em 1964, Piaget foi convidado como consultor chefe de duas conferências na Cornell University e na University of California. Ambas as conferências debatiam possíveis reformas curriculares baseadas nos resultados das pesquisas de Piaget quanto ao desenvolvimento cognitivo. Em 1979, ele recebeu o Balzean Prize for Political and Social Sciences.
Ele morreu no dia 19 de setembro de 1980 (com 84 anos).
Sir Jean William Fritz Piaget (Neuchâtel, 9 de agosto de 1896 - Genebra, 16 de setembro de 1980) foi um epistemólogo suíço, considerado o maior expoente do estudo do desenvolvimento cognitivo.
Estudou inicialmente biologia, na Suíça, e posteriormente se dedicou à área de Psicologia, Epistemologia e Educação. Foi professor de psicologia na Universidade de Genebra de 1929 a 1954; tornando-se mundialmente reconhecido pela sua revolução epistemológica. Durante sua vida Piaget escreveu mais de cinqüenta livros e diversas centenas de artigos.

Epistemologia genética

A Epistemologia Genética defende que o indivíduo passa por várias etapas de desenvolvimento cognitivo ao longo da sua vida. O desenvolvimento dá-se através do equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, resultando em adaptação. Segundo esta formulação, o ser humano assimila os dados que obtém do exterior, mas uma vez que já tem uma estrutura mental que não está "vazia", precisa adaptar esses dados à estrutura mental já existente. O processo de modificação de si próprio é chamado de acomodação. Este esquema revela que nenhum conhecimento nos chega do exterior sem que sofra alguma alteração pela nossa parte. Ou seja, tudo o que aprendemos é relacionado com aquilo que já tínhamos aprendido. Piaget somente veio a conhecer as pesquisas de Vygotsky em 1961, muito depois da morte deste. Originalmente um biólogo, com a especialização em moluscos do Lago Genebra, fez seus estudos de psicologia do desenvolvimento entrevistando milhares de crianças e inicialmente observando como seus filhos cresciam.
As teorias de Piaget sobre o desenvolvimento psicológico mostraram-se muito influentes. Entre outros, o filósofo e cientista social Jürgen Habermas as incorporou em seu trabalho, mais notadamente em A Teoria da Ação Comunicativa. O historiador da Ciência Thomas Kuhn e o pensador marxista Lucien Goldmann tiveram em Piaget um interlocutor importante. A influência de Piaget na psicologia, pedagogia e educação é notável. Na área da alfabetização temos a obra de Emília Ferreiro. No Brasil, suas ideias começaram a ser difundidas na época do movimento da Escola Nova, principalmente por Lauro de Oliveira Lima.
Seymour Papert usou o trabalho de Piaget como fundamentação ao desenvolver a linguagem de programação Logo. Alan Kay usou as teorias de Piaget como base para o sistema conceitual de programação Dynabook, que foi inicialmente discutido em Xerox PARC. Estas discussões levaram ao desenvolvimento do protótipo Alto, que explorou pela primeira vez os elementos do GUI, ou Interface Gráfica do Usuário, e influenciou a criação de interfaces de usuário a partir dos anos 80.

Teoria

Através da minuciosa observação de seus filhos e principalmente de outras crianças, Piaget impulsionou a Teoria Cognitiva, onde propõe a existência de quatro estágios de desenvolvimento cognitivo no ser humano: sensório-motor, pré-operacional (pré-operatório), operatório concreto e operatório formal.

Publicações em português da obra de Jean Piaget

Como autor principal

  1. A Construção do Real na Criança. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. 360 p.
  2. A Epistemologia Genética e a Pesquisa Psicológica. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1974.
  3. A Epistemologia Genética. Trad. Nathanael C. Caixeira. Petrópolis: Vozes, 1971. 110p.
  4. A Equilibração das Estruturas Cognitivas. Problema central do desenvolvimento. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
  5. A Evolução Intelectual da Adolescência à Vida Adulta. Trad. Fernando Becker e Tania B.I. Marques. Porto Alegre: Faculdade de Educação, 1993. Traduzido de: Intellectual Evolution from Adolescence to Adulthood. Human Development, v. 15, p. 1-12, 1972.
  6. A Formação do Símbolo na Criança. Imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Trad. Alvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
  7. A Linguagem e o Pensamento da Criança. Trad. Manuel Campos. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959. 307 p.
  8. A Noção de Tempo na Criança. Rio de Janeiro: Distribuidora Record, (s.d.).
  9. A Origem da Idéia do Acaso na Criança. Rio de Janeiro: Distribuidora Record, (s.d.).
  10. A Práxis na Criança. In.: Piaget. Rio de Janeiro: Forense, 1972.
  11. A Psicologia da Inteligência. Trad. Egléa de Alencar. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1958. 239 p.
  12. A Representação do Mundo na Criança. Rio de Janeiro: Distribuidora Record, [s.d.].
  13. A Situação das Ciências do Homem no Sistema das Ciências. Trad. Isabel Cardigos dos Reis. Amadora: Bertrand, Vol. I, 1970. 146 p.
  14. A Vida e o Pensamento do Ponto de Vista da Psicologia Experimental e da Epistemologia Genética. In.: Piaget. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1972.
  15. Abstração Reflexionante: Relações lógico-aritméticas e ordem das relações espaciais. Trad. Fernando Becker e Petronilha G. da Silva, Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
  16. Aprendizagem e Conhecimento. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1979.
  17. Biologia e Conhecimento. Trad. Francisco M. Guimarães. Petrópolis: Vozes, 1973. 423p.
  18. Conversando com Jean Piaget. Rio de Janeiro: Difel, 1978.
  19. Da Lógica da Criança à Lógica do Adolescente. São Paulo: Pioneira, 1976.
  20. Ensaio de Lógica Operatória. São Paulo: Editora Globo/EDUSP, 1976.
  21. Estudos Sociológicos. Rio de Janeiro: Forense, 1973.
  22. Fazer e Compreender. Trad. Cristina L. de P. Leite. São Paulo: Melhoramentos; EDUSP, 1978. 186 p.
  23. Gênese das Estruturas Lógicas Elementares. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. 356 p.
  24. Inconsciente Afetivo e Inconsciente Cognitivo. In.: Piaget. Rio de Janeiro: Forense, 1972.
  25. O Estruturalismo. Trad. Moacir R. de Amorim. São Paulo: Difel, 1970. 119 p.
  26. O Juízo Moral na Criança. São Paulo:Summus, 1994. 302 p.
  27. O Julgamento Moral na Criança. São Paulo: Mestre Jou, 1977.
  28. O Nascimento da Inteligência na Criança. Trad. Alvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. 387p.
  29. O Possível e o Necessário. Evolução dos necessários na criança. Porto Alegre: Artes médicas, v. 2, 1986.
  30. O Raciocínio na Criança. Trad. Valerie Rumjanek Chaves. Rio de Janeiro: Record, 1967. 241p.
  31. O Trabalho por Equipes na Escola: bases psicológicas. Trad. Luiz G. Fleury. Revista de Educação. São Paulo: Diretoria do Ensino do Estado de São Paulo. vol. XV e XVI, 1936. p. 4-16.
  32. Para Onde Vai a Educação? Trad. Ivete Braga. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. 89 p.
  33. Psicologia e Epistemologia: Por uma teoria do conhecimento. Trad. Agnes Cretella. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1973. 158 p.
  34. Psicologia e Pedagogia. Trad. Dirceu A. Lindoso; Rosa M.R. da Silva. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1970. 182 p.
  35. Sabedoria e Ilusões da Filosofia. Trad. Zilda A. Daeir. São Paulo: Difusão Européia, 1969. 200 p.
  36. Seis Estudos de Psicologia. Trad. Maria A.M. D'Amorim; Paulo S.L. Silva. Rio de Janeiro: Forense, 1967. 146 p.
  37. Tratado de Psicologia Experimental: A inteligência. Trad. Alvaro Cabral. Rio de Janeiro: Forense, v. 7, 1969.