Prisão de sócios da boate Kiss e músicos é prorrogada por 30 dias
Justiça aceitou pedido da Polícia Civil contra os quatro suspeitos.
Para o MP, possível soltura prejudicaria andamento das investigações.
Tatiana Lopes
Do G1, em Santa Maria
Prorrogação foi concedida pelo juiz plantonista Régis Bertolini (Foto: Tatiana Lopes/G1)
Foi prorrogada por 30 dias a prisão temporária dos dois sócios da boate
Kiss e de dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira. A boate foi
atingida por um incêndio no último domingo (27), que deixou 236 mortos. O
pedido da Polícia Civil foi aceito pela Justiça do
Rio Grande do Sul
na manhã desta sexta-feira (1º). Os quatro suspeitos ficarão detidos
por mais um mês para não prejudicar o andamento das investigações.
Segundo o Ministério Público, a polícia diz que a manutenção da prisão é
necessária porque há possibilidade de fuga caso eles sejam soltos nesta
sexta, data em que se encerraria a prisão temporária de cinco dias
expedidas pelo Judiciário.
Justiça aceitou pedido da Polícia Civil contra os
quatro suspeitos no caso da boate Kiss
(Foto: Tatiana Lopes/G1)
A prorrogação foi concedida pelo juiz plantonista Régis Bertolini, de
Santa Maria.
Elissandro Spohr, seu sócio Mauro Hoffmann e os integrantes da banda
Gurizada Fandangueira, o vocalista Marcelo de Jesus dos Santos e o
técnico de palco Luciano Augusto Bonilha Leão estão presos desde
segunda-feira (28).
No despacho, o juiz cita que "a indiferença dos sócios administradores
da casa noturna com a insegurança oferecida no local traz fortes
indícios de que estes assumiram o resultado morte dos frequentadores do
local", diz o documento obtido pelo
G1.
Logo depois da decisão, os advogados de Mauro Hoffmann chegaram ao
local para comunicar o juiz titular Ulysses Fonseca Louzada de que vão
protocolar o pedido de revogação da prisão.
"A gente sabe que houve uma coisa horrível e é preciso apontar
culpados. É o que vamos fazer a partir de agora", diz o juiz Louzada.
Parecer do Ministério Público
Investigações iniciais "indicam a presença do dolo na conduta dos
representados, evidenciando a prática de homicídio doloso, portanto,
tendo os representados assumido o risco de produzir o resultado morte de
mais de duzentas pessoas, por meio de asfixia"
Já a Promotoria afirma que as investigações iniciais "indicam a
presença do dolo na conduta dos representados, evidenciando a prática de
homicídio doloso, portanto, tendo os representados assumido o risco de
produzir o resultado morte de mais de duzentas pessoas, por meio de
asfixia". Dolo é o crime cometido com intenção.
"Estamos diante, portanto, por ora, de crime de homicídio qualificado, o
qual é considerado crime hediondo", afirmam os promotores Joel Oliveira
Dutra e Waleska Flores Agostini, que assinam o parecer. Ainda segundo o
MP, os sócios "mantinham estabelecimento comercial que não tinha
condições de operar e, mais, operavam de forma temerária", os
"extintores não funcionavam", e "houve uso de artefatos pirotécnicos não
permitidos para ambientes fechados".
Além disso, a Promotoria afirma que "houve a utilização de materiais
altamente inflamáveis não permitidos para o isolamento acústico, que,
segundo já noticiado, liberava substância tóxica (cianeto), que já foi
detectado em uma das vítimas sobreviventes, ainda hoje internada junto
ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre".
Já os integrantes da Banda Gurizada Fandangueira, "com suas condutas,
teriam concorrido para a prática do ilícito", diz o MP. Isso porque o
produtor da banda "adquiria os artefatos pirotécnicos, com ciência de
que não poderiam ser utilizados em ambiente fechado", "parecendo
desimportar-se com o resultado de sua conduta, apenas visando ao lucro".
O vocalista da banda, "teria ciência de tal fato e, mesmo assim,
utilizava os artefatos, sendo que há notícia, inclusive, de que chegou a
encostar no teto da boate tal artefato". "Da mesma forma, estando com o
microfone na mão, não foi capaz de alertar as pessoas acerca da
existência de fogo no ambiente", alega o Ministério Público.
Depoimentos
O sócio da Boate Kiss, o vocalista e o produtor da banda Gurizada Fandangueira deram
versões contraditórias nos depoimentos à polícia sobre o incêndio. O
Jornal Nacional teve acesso ao depoimento das testemunhas.
Já prestaram depoimento à polícia jovens que estavam no local no
momento do incêndio, músicos e sócios da boate, entre eles Elissandro
Spohr, conhecido como Kiko, que foi ouvido no domingo (27). Ele afirmou
que a banda tocava na boate uma vez por mês, mas nunca tinha feito esse
show pirotécnico e nunca havia pedido consentimento para que se fizesse
esse tipo de apresentação.
Ainda de acordo com o depoimento de Spohr, o teto da boate seria de
gesso, com uma camada de lã de vidro acima. No palco, havia uma primeira
camada de esponja para isolamento acústico.
O advogado Jader Marques, que defende Spohr, afirmou que não tinha
certeza sobre o uso de espuma. "Pode sim ter acontecido que o Kiko, com
orientação desse engenheiro, ter adicionado elementos como espuma,
parede, madeira, gesso em outros locais fora do projeto do Ministério
Público e sem o conhecimento do Ministério Público. Pode isso ter
acontecido? Sim, pode, pode ter acontecido."
Entenda
O incêndio na boate Kiss, em
Santa Maria, região central do
Rio Grande do Sul,
deixou 236 mortos na madrugada do último domingo (27). O fogo teve
início durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que fez
uso de artefatos pirotécnicos no palco. De acordo com relatos de
sobreviventes e testemunhas, e das informações divulgadas até o momento
por investigadores:
- O vocalista
segurou um artefato pirotécnico aceso.
- Era
comum a utilização de fogos pelo grupo.
- A banda comprou um
sinalizador proibido.
- O extintor de incêndio
não funcionou.
- Havia
mais público do que a capacidade.
- A boate tinha apenas
um acesso para a rua.
- O alvará fornecido pelos Bombeiros
estava vencido.
- Mais de
180 corpos foram retirados dos banheiros.
- 90% das vítimas fatais tiveram
asfixia mecânica.
-
Equipamentos de gravação estavam no conser